quinta-feira, novembro 08, 2012


Plano de trabalho – Encantando a literatura pelo Brasil

Manual de Literatura (En)Cantada - Estados

Apresentação
O projeto Manual de Literatura (En)Cantada foi elaborado a partir da observação de que nas redes de ensino pública e particulares do Brasil existem poucas opções de materiais didáticos e paradidáticos que tratam dos temas da História e Cultura Afro-Brasileira. O projeto surgiu com o intuito de preencher esta lacuna, de modo a auxiliar profissionais da educação a trabalharem com os temas da africanidade e da afrodescendência e para o cumprimento da lei 10.639/03. Foi um sucesso total e a primeira experimentação conta com 12 textos que foram musicados e compõe o Manual de Literatura (En)Cantada.

Assim, a proposta agora será produzir um novo material pedagógico composto de novo livro-DVD, um material a ser produzido a partir de textos selecionados da literatura brasileira – tanto poesia quanto prosa – extraídos de obras que vão dos clássicos aos populares, com enfoque em autores de cada Estado da federação que o projeto acontecer, que serão musicados, e sobre os quais o livro também buscará resgatar informações sobre seus aspectos linguísticos, culturais, históricos e sociais.

O livro-DVD proposto nascerá de um trabalho de criação coletiva, por meio de oficinas culturais, baseado na experiência de mais de duas décadas do músico, escritor e produtor cultural francês Frédéric Pagès em parceria com músicos e arte-educadores que serão escolhidos em cada um dos Estados selecionados.

Assim, a proposta é realizar ciclos de oficinas de 20h (5 sessões de 4 horas cada), no período de duração do projeto, para músicos que atuam no campo da arte educação, professores de música e de dança, professores de língua portuguesa, literatura, artes,  educação física, que tenham sensibilidade musical, das redes pública e privada, de escolas de música, conservatórios, ONGs, etc., nos Estados selecionados, e que queiram usar a música e o ritmo como modo de abordagem criativa da literatura e do trabalho com a língua em geral (ler e escrever). Ao todo propomos a realização de um ciclo de oficina em cada um dos nove Estados selecionados. Os responsáveis pelas oficinas serão os músicos brasileiros e estrangeiros já envolvidos no projeto original.

Cada ciclo de oficina vai comportar uma parte de metodologia geral: como trabalhar os textos literários com a voz, o corpo, o ritmo; a aplicação concreta dessa metodologia na musicalização de um ou dois textos literários de autores do Estado onde acontece a oficina.

O resultado desses trabalhos serão gravados. Cada ciclo resultará pelo menos (no mínimo) em uma música gravada. As oficinas serão filmadas.
O produto do projeto = um Livro-DVD
O DVD: de 10 a 20 músicas mais uma hora de vídeo, com 3 sequências de 20 minutos cada uma, seguindo passo a passo 3 exemplos de musicalização de 3 textos.

O livro será composto pelos os textos utilizados nas oficinas e gravações, as biografias resumidas dos autores e dicas metodológicas.

Objetivos do Projeto
- Despertar o desejo pela leitura a partir do desenvolvimento musical e rítmico;
- Promover o interesse pela pesquisa a partir de referências interdisciplinares;
- Fornecer material didático;
- Oferecer proposta de metodologia para musicar textos;
- Oferecer proposta de metodologia para educação artística por meio da literatura e música;
- Oferecer proposta de metodologia para educação física por meio dos textos coreografados e musicados;
- Oferecer aos jovens músicos e artistas profissionais e semiprofissionais dos Estados selecionados que participarem das oficinas uma formação pedagógica complementar que permita se tornarem formadores e divulgadores da metodologia aprendida durante as oficinas;
- Colaborar com as redes de ensino no cumprimento da lei 10.639/03.

Pré-produção:
Os primeiros seis meses do projeto servirão para que possamos fazer o mapeamento de textos de autores clássicos e contemporâneos de cada Estado em que o projeto irá percorrer.

Ao mesmo tempo, outro mapeamento, o de músicos e arte-educadores interessados no projeto, em cada Estado, será feito por intermédio do contato com associações voltadas à música, grupos de músicos e as redes de ensino de cada Estado. Isso acontecerá inclusive, e principalmente, por meio da reestruturação do site do projeto original, de forma que possa se constituir em um fórum e uma ferramenta efetiva de comunicação e debate sobre música e literatura, além de servir para aglutinar e selecionar os participantes (oficinandos). Servirá também para a troca de ideias, principal canal de comunicação entre os músicos selecionados e divulgação da agenda de oficinas e das atividades em cada Estado. No entanto sabemos que teremos de nos dedicar bastante à pesquisa eletrônica na internet e a telefonemas interurbanos.

Realizaremos também, nesta etapa, os contatos com os profissionais de criação pré-selecionados em cada Estado para que possam participar da seleção final que resultará na formação dos grupos que se responsabilizarão pela musicalização dos textos nas oficinas e gravação. A metodologia de seleção será a efetiva participação no site.

No que tange a parte jurídica, encaminharemos para um advogado especialista em direito autoral todos os detalhes que regerão os acordos entre a organização do projeto e os profissionais de criação, que por sua vez assinarão um contrato se compromissando com a proposta do projeto, assim como será feita a autorização necessária para a utilização dos textos que não se enquadrarem no domínio público.

O projeto prevê formar 100 músicos e arte-educadores em 10 Estados (sendo 10 por Estado), considerando que os Estados a serem selecionados estejam fora dos principais circuitos musicais e/ou literários brasileiros.
  
Os Estados previamente selecionados para mapeamento, por região, são:

Região Nordeste
Ceará
Piauí
Paraíba
Alagoas

Região Norte
Amazonas
Pará
Amapá

Região Centro-Oeste
Distrito Federal
Goiás
Mato Grosso
  
Região Sudeste
Espírito Santo

Região Sul
Santa Catarina

Produção:
As oficinas irão acontecer em cinco dias consecutivos, com duração quatro horas cada, e serão ministradas por quatro pessoas: Frédéric e Xavier, acompanhados de dois oficineiros que tenham participado do projeto seminal, além de um profissional para captação de imagens e o produtor executivo do projeto.

Em cada Estado, ou grupo de dois Estados, serão escolhidos “convidados especiais", músicos renomados em cada Estado que participarão das gravações no estúdio.

As oficinas, que acontecerão em nove Estados diferentes e serão organizadas de modo a racionalizar o tempo e o espaço, terão a duração de cinco dias, ou 20 horas no total. Portanto, a junção das regiões norte e nordeste em uma etapa de oficinas, e das regiões centro-oeste, sul e sudeste, estimamos que esta etapa terá a duração de cerca de 45 dias, em que devemos considerar dois períodos de 22,5 dias. Considerando o deslocamento e a organização geral das oficinas – negociação de espaço para a realização, etc. - e um descanso de 2 dias, estimamos que cada período de 22,5 dias de oficinas consumirá, na verdade, entre 30 e 40 dias de trabalho.

O material gravado em cada ciclo de oficinas comporá o DVD com músicas e exemplos visuais da metodologia sendo aplicada na musicalização de três textos.

Além disso, começará uma nova etapa: a de finalização da redação dos textos do Livro-DVD e também a negociação das autorizações de direitos autorais com os herdeiros ou seus representantes (para os textos que não estiverem em domínio público).

Divulgação e pós-produção:
A divulgação será desenvolvida desde o início do projeto, porém se dará efetivamente por meio da contratação de assessoria de comunicação estratégica. Ela será norteada seguindo as indicações da organização do projeto que dirá quais canais de mídia serão trabalhados e, também, qual o público alvo será atingido. Priorizaremos as mídias locais, principalmente por intermédio de sites locais.

Esse será o período de finalização (mixagem das músicas e edição dos vídeos do DVD). Além disso, os materiais produzidos para divulgação do projeto serão um meio importante para dar conhecimento ao público geral do dia-a-dia e dos resultados do trabalho. Serão distribuídas mil cópias do Livro-DVD e mais mil cópias da nova tiragem do livro-CD original.
  
Prestação de contas:
Serão encaminhados para a PETROBRÁS, no período intermediário e no período final do projeto, relatórios com fotos e vídeos que demonstrem o desenvolvimento das atividades que resultarão no Livro-DVD e as notas fiscais das contrapartidas contratadas.
  
Público Alvo (especificar e quantificar)
ESPECIFICAÇÃO
QUANTIDADE
Estudantes de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
Estudantes de Língua Portuguesa da Educação de Jovens e Adultos
Redes Municipal e Estadual de Ensino
Estudantes de Artes do Ensino Básico e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
Estudantes de Educação Física do Ensino Básico e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
  

                                            Empregos diretos gerados
DESCRIÇÃO DO SERVIÇO
QUANTIDADE

Direção Geral
Curadoria
Assessoria Jurídica
Produção Executiva
Designer Gráfico
Profissionais de Criação
Profissional de vídeo


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sexta-feira, dezembro 03, 2010

Cláudio Lembo – a direita que pensa!

Cláudio Lembo – a direita que pensa!

Assim como defendemos neste locomovimento, repete-nos o governador mais lúcido que SP já teve nas duas últimas décadas: "Valeria a pena pensar em recolher as armas. Procurar a paz".

E mais: "As questões sociais exigem mais do que armas". 

Vejam dois momentos do Lembo, o atual e em 2006, quando corajosamente enfrentou o PCC com sapiência.

Cláudio Lembo e os ataques no Rio

Enviado por luisnassif, seg, 29/11/2010 - 14:15
Por Vera Passos
Do Terra Magazine

O dia seguinte
Cláudio Lembo

De São Paulo

As cenas dos últimos acontecimentos no Rio de Janeiro preocupam. Há em alguns meios de comunicação uma euforia juvenil pelas ações militares. São expressivas. Demonstram capacidade de ação.
Ocorre que, na outra ponta, se encontram pessoas fragilizadas pela situação e enfraquecidas pela dura realidade que as cercam. Não são os integrantes do tráfico.
Trata-se daquelas pessoas que compõem a comunidade e nela desenvolvem suas vidas e esperanças. Todas, em razão da generalização, são tratadas como delinqüentes.
Perigosa percepção. Tanta gente boa e trabalhadora. Sensata. Envolvida, porém, pela violência e por um preconceito generalista e inconseqüente. As questões sociais exigem mais do que armas.
Sente-se, nos episódios do Rio de Janeiro, a ausência de comissões específicas de parlamentares federais. Onde estão os representantes do povo no Congresso Nacional?
Até agora foram incapazes de conceber um grupo para acompanhar o desenvolvimento dos trabalhos dos órgãos de segurança. Nada, absolutamente nada.
O Judiciário - federal e o estadual - certamente poderia ter instalado juizados nos locais afetados para receber eventuais registros de um Ministério Público até agora aparentemente ausente.
A mesma observação cabe à Defensoria Pública. Onde se encontra este novo órgão concebido pela Constituição de 1988? Há uma ausência das entidades significativas da sociedade.
Só contingentes militares. Nada de atividade social. Pessoas preparadas para enviar mensagens em situações de confronto. Apenas armas. Nenhuma atividade de solidariedade aos bons.
Esquecem os agentes da legítima ação contra os traficantes que há um dia seguinte e este diz respeito à comunidade como um todo. Os habitantes de todas as regiões precisam conviver em harmonia.
É própria das cidades a convivência civil. Aquela que permite a igualdade, ao menos formal, entre as pessoas. As armas são instrumentos transitórios. Pode-se resolver aparentemente um conflito.
Elas, todavia, jamais levam à paz. Esta é conseqüência da harmonia entre pessoas e da busca comum da felicidade. Este anseio não pode ser apenas de alguns. Para ser efetiva necessita ser de todos.
Falta, na fala das autoridades, a exposição do dia seguinte. Como serão tratadas as comunidades? Quais os investimentos a serem efetivados? Como se combaterá a ociosidade oriunda da ausência de escolas e trabalho?
As operações são necessárias em razão da violência atomizada que se espalhou pelo Rio de Janeiro. Mas o extermínio de alguns poderá contentar setores da sociedade. Não resolverá, porém, a questão.
Esta necessita de esforço conjunto de todas as esferas de Governo. Contentar determinados segmentos da sociedade, em detrimento de outros, não é boa política.
A política sadia é desapaixonada. Pensa no bem comum. Esquece diferenças. Compreende que todas as pessoas são iguais e merecem, em conseqüência, tratamento igualitário.
As exposições das autoridades, em grande massa, nas rádios e televisões apontam para o momento. Lembram comandantes de batalhas contra inimigos da Nação.
Jamais se lança palavra apaziguadora e sensata. A comunicação eletrônica, nestes momentos difíceis, deve ser usada para dirigir mensagens positivas à parte que se deseja reintegrar na sociedade.
Caso contrário, todos se tornam bravateiros em busca de fama transitória, Esta se transformará em veredicto histórico. Até hoje, acontecimentos sociais do passado são relembrados.
Aquilo que, no momento, parece heróico mostra-se com o afastamento do tempo patèticamente amargo. Basta reviver Canudos. O Rio de Janeiro é diferente, dirá alguém. Trata-se de criminalidade puro e simples.
É verdade. Mas mesma miséria que gerou inúmeros episódios pelo Brasil afora, no longo dos séculos, se encontra presente nos morros da cidade do Rio.
Valeira a pena pensar em recolher as armas. Procurar a paz. Os brasileiros não podem ser divididos por brasileiros. É preciso buscar - desesperadamente - a união de cada cidadão com o seu conacional.
Assim se construirá o futuro.
Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.




18/05/2006 - 08h54
Burguesia terá de abrir a bolsa, diz Lembo

MÔNICA BERGAMO
Colunista da Folha de S.Paulo

O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, afirma que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a "minoria branca" mudar sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa", afirmou. "A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações."

Lembo criticou o ex-governador Geraldo Alckmin, que disse que aceitaria ajuda federal contra as ações do PCC se ainda estivesse no cargo, e o ex-presidente FHC, que atacou negociação entre o Estado e a facção criminosa para o fim dos ataques. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Folha - Os jornais estão noticiando hoje [ontem] que houve uma matança em São Paulo na madrugada de terça. A polícia está sob controle ou está partindo para uma vingança?

Cláudio Lembo - A polícia está totalmente sob controle. Eu conversei muito longamente com o coronel Elizeu Eclair [comandante-geral da PM] e estou convicto de que ela está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade. Todas as noites há confrontos nas ruas da cidade e esses conflitos foram exasperados nesses dias. Mas vingança, não. A polícia agiu para evitar o pior para a sociedade.

Folha - Foram 93 mortes. Elas estão dentro dos limites? O senhor tem segurança que todos que morreram estavam em confronto?

Lembo - E o conflito que houve da cidade com a bandidagem? Foi violento. É possível que tenha havido tragédias, mas pelo que estou informado não houve nada que fosse além dos confrontos diretos.

Folha - Só no IML (Instituto Médico Legal) estão 40 mortos e não se sabe nem o nome dessas pessoas.

Lembo - Os nomes vão ser revelados. Estamos resolvendo questões burocráticas, de identificação, mas vão ser revelados.

Folha - Jornalistas da Folha entraram no IML e viram fotos de pessoas mortas com tiros na cabeça. Que garantia a sociedade tem de que não morreram inocentes e de que o Estado, por meio da polícia, não está executando essas pessoas?

Lembo - Não está, de maneira alguma. E digo a você: fui muito aconselhado a falar tolices como "aplique-se a lei do Talião". Fui totalmente contrário. Faremos tudo dentro da legalidade e do Estado de Direito.

Folha - O senhor não se assusta com o número de mortos?

Lembo - Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.

Folha - E da miséria...

Lembo - Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.

Folha - O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.

Lembo - Essa piada é minha.

Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?

Lembo - Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.

Folha - Que ficou assustada nos últimos dias.

Lembo - E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.

Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].

Lembo - Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.

Folha - O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?

Lembo - O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.

Folha - Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?

Lembo - Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.

Folha - Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?

Lembo - O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.

Folha - O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria...

Lembo - ...pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.

Folha - O endurecimento na legislação pode resolver o problema?

Lembo - Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.

Folha - O senhor diz que muita gente falou besteira sobre os episódios. Dos EUA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a possibilidade de o governo ter feito acordo com os criminosos para cessar a violência.

Lembo - Eu acho que o presidente Fernando Henrique poderia ter ficado silencioso. Ele deveria me conhecer e conhecer o governo de SP. Eu não posso admitir nem a hipótese de se pensar isso. Para opinar sobre um tema tão amargo, tão grave, ele teria que refletir, pensar. E se informar. Quanto ao presidente [FHC], pode ser que eventualmente ele tenha precedente sobre acordos. Eu não tenho.

Folha - Vimos o senhor dando muitas entrevistas na TV. Mas SP teve um outro governador [Alckmin], tem um candidato ao governo e ex-prefeito [Serra]. O senhor ficou sozinho?

Lembo - No poder, um homem é absolutamente solitário. Houve momentos em que praticamente fiquei sozinho. Mas devo agradecer a Polícia Militar e a Polícia Civil também, que estiveram firmes ao meu lado.

Folha - O ex-governador Alckmin telefonou para o senhor em solidariedade?

Lembo - Dois telefonemas.

Folha - O senhor achou pouco?

Lembo - Eu acho normal. Os pulsos [telefônicos] são tão caros...

Folha - E o candidato José Serra?

Lembo - Não telefonou. Eu recebi telefonema da governadora Rosinha [do Rio de Janeiro] e de Aécio Neves [governador de MG], que estava em Washington, ele foi muito elegante. Um ofício do governador Mendonça, de Pernambuco. Recebi muitos apoios, do Poder Judiciário, e a Assembléia Legislativa, deputados de todas as bancadas, nenhum partido faltou.

Folha - As autoridades paulistanas garantiram, nos últimos anos, que o PCC estava desmantelado, que era um dentinho aqui ou ali. Elas enganaram os paulistanos?

Lembo - Não saberia responder. Eu não engano. Eu acho que nós ganhamos uma situação mas é um grande risco. Temos que ficar muito atentos.

Folha - Essas autoridades garantiram que o PCC tinha acabado. Ou elas enganaram...

Lembo - Ou o dentinho era maior do que elas diziam.

Folha - Ou foram incompetentes. O senhor vê terceira alternativa?

Lembo - Pode ser que tenham sido exageradas no momento de transferir segurança. Quiseram ser tranquilizadoras.

Folha - Então elas iludiram as pessoas?

Lembo - É possível.

Folha - O senhor pode dizer que o PCC pode acabar até o fim de seu governo?

Lembo - Só se eu fosse um louco. E ainda não estou com sinal de demência. Acho que o crime organizado é perigosíssimo. Ele se recompõe porque ele tem possibilidades enormes na sociedade.

Folha - O ex-presidente Fernando Henrique não telefonou?

Lembo - Não, não. Ele estava em Nova York. O presidente Lula telefonou, foi muito elegante comigo. Conversei muito com o presidente, ele me deu muito apoio. E o Márcio [Thomaz Bastos] veio, conversamos firmemente, com lealdade. E ele chegou à conclusão que não era necessário nem Exército nem a guarda nacional. Tivemos uma conversa responsável, e o equilíbrio voltou. Mostrei que a Polícia Civil e a Polícia Militar tinham condições de fazer retornar a SP a ordem e a disciplina social.

Folha - O Datafolha mostrou que 73% acham que o senhor deveria ter aceitado ajuda federal. O governador Alckmin disse que não rejeitaria a ajuda.

Lembo - Ele decidiria, se fosse governador, como achava melhor. Eu decidi da forma que achei melhor. Quanto às outras pessoas, faltou clareza de informação da minha parte. E aí me penitencio. Não é que não aceitei ajuda do governo. Ao contrário. Desde sempre houve vínculo forte entre o sistema de informação da polícia federal e a polícia de SP. A superintendência da PF em SP foi extremamente leal, solícita e dinâmica.

Eu tinha uma Polícia Militar muito aparelhada. Eu não poderia tirar esse respeito e esse moral que a tropa tinha que ter naquele momento tão difícil aceitando tanques de guerra do Exército. E aí uma sociedade que gosta de paternalismo, como a brasileira, queria Exército, tropas americanas, tropas alemãs, tropas de todo o mundo aqui. Não é assim.

Temos que ser fortes, saber decidir em momentos difíceis e dar valor ao que é nosso. Foi o que fiz. Em 48 horas liquidou-se o problema. O Exército é para matar o adversário. Eu queria recolher os adversários possíveis. Nós estávamos num conflito social.