domingo, maio 26, 2013

Comemorar o medo

Mia Couto

http://www.youtube.com/watch?v=5SUAsNXzcN0


Bom,  Nada mais inseguro do que um escritor numa conferência sobre segurança, um escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e na anterior edição… preciso de um abrigo,preciso de um refúgio… é um texto que vou ler… o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente... não sou capaz em sete minutos. Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se Comemorar o Medo.


Comemorar o Medo


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.


O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.


O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais grave dessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha nãodesarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina .O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião.


O que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem:Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos,mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro.


Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade,imprevisível.Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo estas:


Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria doarmamento?


Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um triliãoe meio de dólares em armamento militar?


Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi?


Por que motivos se realizam mais seminários sobressegurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essa arma chama-se fome!  Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento.


A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação porém é bem menor que o medo!Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões.


As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.


Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que nãotrabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares;os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.  ( AUTOR: Mia Couto )

quinta-feira, novembro 08, 2012


Plano de trabalho – Encantando a literatura pelo Brasil

Manual de Literatura (En)Cantada - Estados

Apresentação
O projeto Manual de Literatura (En)Cantada foi elaborado a partir da observação de que nas redes de ensino pública e particulares do Brasil existem poucas opções de materiais didáticos e paradidáticos que tratam dos temas da História e Cultura Afro-Brasileira. O projeto surgiu com o intuito de preencher esta lacuna, de modo a auxiliar profissionais da educação a trabalharem com os temas da africanidade e da afrodescendência e para o cumprimento da lei 10.639/03. Foi um sucesso total e a primeira experimentação conta com 12 textos que foram musicados e compõe o Manual de Literatura (En)Cantada.

Assim, a proposta agora será produzir um novo material pedagógico composto de novo livro-DVD, um material a ser produzido a partir de textos selecionados da literatura brasileira – tanto poesia quanto prosa – extraídos de obras que vão dos clássicos aos populares, com enfoque em autores de cada Estado da federação que o projeto acontecer, que serão musicados, e sobre os quais o livro também buscará resgatar informações sobre seus aspectos linguísticos, culturais, históricos e sociais.

O livro-DVD proposto nascerá de um trabalho de criação coletiva, por meio de oficinas culturais, baseado na experiência de mais de duas décadas do músico, escritor e produtor cultural francês Frédéric Pagès em parceria com músicos e arte-educadores que serão escolhidos em cada um dos Estados selecionados.

Assim, a proposta é realizar ciclos de oficinas de 20h (5 sessões de 4 horas cada), no período de duração do projeto, para músicos que atuam no campo da arte educação, professores de música e de dança, professores de língua portuguesa, literatura, artes,  educação física, que tenham sensibilidade musical, das redes pública e privada, de escolas de música, conservatórios, ONGs, etc., nos Estados selecionados, e que queiram usar a música e o ritmo como modo de abordagem criativa da literatura e do trabalho com a língua em geral (ler e escrever). Ao todo propomos a realização de um ciclo de oficina em cada um dos nove Estados selecionados. Os responsáveis pelas oficinas serão os músicos brasileiros e estrangeiros já envolvidos no projeto original.

Cada ciclo de oficina vai comportar uma parte de metodologia geral: como trabalhar os textos literários com a voz, o corpo, o ritmo; a aplicação concreta dessa metodologia na musicalização de um ou dois textos literários de autores do Estado onde acontece a oficina.

O resultado desses trabalhos serão gravados. Cada ciclo resultará pelo menos (no mínimo) em uma música gravada. As oficinas serão filmadas.
O produto do projeto = um Livro-DVD
O DVD: de 10 a 20 músicas mais uma hora de vídeo, com 3 sequências de 20 minutos cada uma, seguindo passo a passo 3 exemplos de musicalização de 3 textos.

O livro será composto pelos os textos utilizados nas oficinas e gravações, as biografias resumidas dos autores e dicas metodológicas.

Objetivos do Projeto
- Despertar o desejo pela leitura a partir do desenvolvimento musical e rítmico;
- Promover o interesse pela pesquisa a partir de referências interdisciplinares;
- Fornecer material didático;
- Oferecer proposta de metodologia para musicar textos;
- Oferecer proposta de metodologia para educação artística por meio da literatura e música;
- Oferecer proposta de metodologia para educação física por meio dos textos coreografados e musicados;
- Oferecer aos jovens músicos e artistas profissionais e semiprofissionais dos Estados selecionados que participarem das oficinas uma formação pedagógica complementar que permita se tornarem formadores e divulgadores da metodologia aprendida durante as oficinas;
- Colaborar com as redes de ensino no cumprimento da lei 10.639/03.

Pré-produção:
Os primeiros seis meses do projeto servirão para que possamos fazer o mapeamento de textos de autores clássicos e contemporâneos de cada Estado em que o projeto irá percorrer.

Ao mesmo tempo, outro mapeamento, o de músicos e arte-educadores interessados no projeto, em cada Estado, será feito por intermédio do contato com associações voltadas à música, grupos de músicos e as redes de ensino de cada Estado. Isso acontecerá inclusive, e principalmente, por meio da reestruturação do site do projeto original, de forma que possa se constituir em um fórum e uma ferramenta efetiva de comunicação e debate sobre música e literatura, além de servir para aglutinar e selecionar os participantes (oficinandos). Servirá também para a troca de ideias, principal canal de comunicação entre os músicos selecionados e divulgação da agenda de oficinas e das atividades em cada Estado. No entanto sabemos que teremos de nos dedicar bastante à pesquisa eletrônica na internet e a telefonemas interurbanos.

Realizaremos também, nesta etapa, os contatos com os profissionais de criação pré-selecionados em cada Estado para que possam participar da seleção final que resultará na formação dos grupos que se responsabilizarão pela musicalização dos textos nas oficinas e gravação. A metodologia de seleção será a efetiva participação no site.

No que tange a parte jurídica, encaminharemos para um advogado especialista em direito autoral todos os detalhes que regerão os acordos entre a organização do projeto e os profissionais de criação, que por sua vez assinarão um contrato se compromissando com a proposta do projeto, assim como será feita a autorização necessária para a utilização dos textos que não se enquadrarem no domínio público.

O projeto prevê formar 100 músicos e arte-educadores em 10 Estados (sendo 10 por Estado), considerando que os Estados a serem selecionados estejam fora dos principais circuitos musicais e/ou literários brasileiros.
  
Os Estados previamente selecionados para mapeamento, por região, são:

Região Nordeste
Ceará
Piauí
Paraíba
Alagoas

Região Norte
Amazonas
Pará
Amapá

Região Centro-Oeste
Distrito Federal
Goiás
Mato Grosso
  
Região Sudeste
Espírito Santo

Região Sul
Santa Catarina

Produção:
As oficinas irão acontecer em cinco dias consecutivos, com duração quatro horas cada, e serão ministradas por quatro pessoas: Frédéric e Xavier, acompanhados de dois oficineiros que tenham participado do projeto seminal, além de um profissional para captação de imagens e o produtor executivo do projeto.

Em cada Estado, ou grupo de dois Estados, serão escolhidos “convidados especiais", músicos renomados em cada Estado que participarão das gravações no estúdio.

As oficinas, que acontecerão em nove Estados diferentes e serão organizadas de modo a racionalizar o tempo e o espaço, terão a duração de cinco dias, ou 20 horas no total. Portanto, a junção das regiões norte e nordeste em uma etapa de oficinas, e das regiões centro-oeste, sul e sudeste, estimamos que esta etapa terá a duração de cerca de 45 dias, em que devemos considerar dois períodos de 22,5 dias. Considerando o deslocamento e a organização geral das oficinas – negociação de espaço para a realização, etc. - e um descanso de 2 dias, estimamos que cada período de 22,5 dias de oficinas consumirá, na verdade, entre 30 e 40 dias de trabalho.

O material gravado em cada ciclo de oficinas comporá o DVD com músicas e exemplos visuais da metodologia sendo aplicada na musicalização de três textos.

Além disso, começará uma nova etapa: a de finalização da redação dos textos do Livro-DVD e também a negociação das autorizações de direitos autorais com os herdeiros ou seus representantes (para os textos que não estiverem em domínio público).

Divulgação e pós-produção:
A divulgação será desenvolvida desde o início do projeto, porém se dará efetivamente por meio da contratação de assessoria de comunicação estratégica. Ela será norteada seguindo as indicações da organização do projeto que dirá quais canais de mídia serão trabalhados e, também, qual o público alvo será atingido. Priorizaremos as mídias locais, principalmente por intermédio de sites locais.

Esse será o período de finalização (mixagem das músicas e edição dos vídeos do DVD). Além disso, os materiais produzidos para divulgação do projeto serão um meio importante para dar conhecimento ao público geral do dia-a-dia e dos resultados do trabalho. Serão distribuídas mil cópias do Livro-DVD e mais mil cópias da nova tiragem do livro-CD original.
  
Prestação de contas:
Serão encaminhados para a PETROBRÁS, no período intermediário e no período final do projeto, relatórios com fotos e vídeos que demonstrem o desenvolvimento das atividades que resultarão no Livro-DVD e as notas fiscais das contrapartidas contratadas.
  
Público Alvo (especificar e quantificar)
ESPECIFICAÇÃO
QUANTIDADE
Estudantes de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
Estudantes de Língua Portuguesa da Educação de Jovens e Adultos
Redes Municipal e Estadual de Ensino
Estudantes de Artes do Ensino Básico e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
Estudantes de Educação Física do Ensino Básico e do Ensino Médio
Redes públicas e particulares de ensino.
  

                                            Empregos diretos gerados
DESCRIÇÃO DO SERVIÇO
QUANTIDADE

Direção Geral
Curadoria
Assessoria Jurídica
Produção Executiva
Designer Gráfico
Profissionais de Criação
Profissional de vídeo


1
1
1
1
1
100
1